terça-feira, 17 de maio de 2011

Epitáfio

Se a treva fui, por pouco fui feliz.
Se acorrentou-me o corpo, eu nao o quis.
Se Deus foi a doença, fui a saúde.
Se Deus foi o meu bem, fiz o que pude.
Se a luz era visivel, me enganei.
Se eu era o só, o só então amei.
Se Deus era mudez, ouvi alguém.
Se o tempo era o meu fim, fui muito além.
Se Deus era de pedra, em vão sofri.
Se o bem foi nada, o mal foi um momento.
Se fui sem ir nem ser, fiquei aqui.
Para que me reflitas e me fites
estas turvas pupilas de cimento:
se devo a vida à morte, estamos quites.

Paulo Mendes Campos

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Coisas Que Ficaram Pelo Caminho

Qual a tua anatomia,
Ao precipitar meu corpo,
Em real desgosto,
No abismo da melancolia?
Insone me entrego,
À ideia corrosiva,
De ter que deixar para trás,
Tudo que me completa.
Levo comigo a ônix,
Pedra pesada ao peito,
Caido em prantos me deito,
Ao som do teu silêncio.
São lembranças...
Daquilo que me foi negado,
E certemente dado, de bom grado,
A outro que não eu.
No esquecimento,
Fustigo meu corpo,
(que sente falto do seu),
E apanho nos braços,
A esperança de um dia,
Num eterno retorno,
Ser feliz de novo,
Eterno retorno...
Um dia,
Ser feliz,
De novo.

sábado, 14 de maio de 2011

Inóspito Aborto

Tudo o que faço parece tão pequeno...
Ingrata razão me recompensa ao fim,
Com o limite desmedido do peito,
Que o coração aos poucos dilacera.

Haverá laço que me sirva de prisão?
Haverá pena que emoldure minha dor?

Aquilatada alva face,
Arqueia ao beijo primeiro,
De inóspitas visagens,
Lembranças do aquém.

Onde foi que perdi a vontade?
Aonde me esqueci de verdade!

Cortante navalha,
Verte do sangue,
Carne retalhada,
E mais nada.

Nefelibata 2011